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A Vida Real não é Instagramável

Este NÃO É UM TEXTO COM DICAS OU RESPOSTAS. Sou eu cutucando o cérebro em reflexões.


Essa coisa de rede social mexe demais com a gente. Todas, em menor ou maior grau, somos influenciadas por essa patacoada e a gente se esquece que a vida acontece é do lado de cá da tela.


Eu sei que tem muita gente propagando essa ideia de que a vida real não é instagramável, mas eu sei também que a gente está muito longe de internalizar essa verdade. Eis a beleza dos perfis que mais crescem para não nos deixar mentir. Quantas vezes eu mesma me pego comparando as fotos bacanas e cases de sucesso das profissionais da minha área ao minimalismo dos resultados reais que obtenho na minha vida real?


O que a gente vê nas redes são RECORTES!!!! Recortes milimetricamente escolhidos para fazer a coisa parecer mais bonita e rentável! Imagens, resultados, depoimentos...é tudo manipulado para parecer melhor do que É!


Qual é, pessoal? Até quando a gente vai percorrer ideais inalcançáveis? A gente "cura" umas feridas, fala sobre etarismo, gordofobia, racismo, corpos reais, empreendedorismo feminino, mulheres poderosas, crenças limitantes etc., e até acredita que isso é inclusão e avanço, mas só tem engajamento se tudo isso vier associado a cenários bonitos, faturamentos dobrados e agendas lotadas e prateleiras esvaziadas por gente elegante, bonita e sincera e, claro, próspera.


Tenho refletido bastante sobre o tal capital visual e é bem verdade que, bem guardadas todas as ressalvas com relação aos padrões de beleza que culturalmente aprendemos a aceitar, o ser humano tem - sim - uma necessidade de estética inerente a si; sítios arqueológicos sempre encontram objetos decorativos, não? Aqui, ao passo que tento estar "bonita" para os vídeos e postar as melhores fotos, sinto uma necessidade, sem demagogia, de mostrar a minha vida (as partes dela que se relacionam ao meu fazer, obviamente) e o meu trabalho como eles são.


Como é que vou falar sobre conectar minhas clientes à sua essência enquanto elas só veem de mim os flashes bonitos e bem-sucedidos que uso para vender uma imagem? Contraditório, não?


"Só posto foto bonita. Se quiser me ver feia, vem aqui em casa." Já viram esse meme? Pois bem; mas ele realmente não faz sentido para mim, sabe porque? Eu ofereço um serviço que se pauta 95% na minha presença com as minhas clientes. Os outros 5% serão produtos acessórios aos tratamentos terapêuticos. Se eu mostro uma Aline que não sou, se eu apresento uma Casa de Bibi que não é, quando a mulher chega até mim, adivinha: ela se frustra! Porque NÃO ADIANTA! Eu não vou estar impecavelmente arrumada sempre, a Casa de Bibi NÃO é um centro estético incrível com balcão de mármore e jardim de inverno! E nem é isso que eu desejo! Sou uma mulher real, periférica, mãe de duas crianças que batalho- junto com meu companheiro - para manter bem, e que foi agraciada com uma casinha de fundo de quintal para firmar o sagrado feminino na ZL de São Paulo.


Foto real de um dos espaços da Casa De Bibi


É com mulheres reais que quero me identificar. Chega de ver cenário ideal em Instagram e se sentir uma m3rd4 por não chegar aos pés da beleza que a gente vê ou do faturamento que a gente imagina que a pessoa tem.


Se este texto parece clichê, conto que falo aqui do que de fato vivo. Já tive mulher que foi me conhecer pessoalmente e repentinamente achou que a Casa de Bibi era longe demais para dar continuidade ao tratamento comigo. Será?


Anos atrás paguei uma profissional para fazer este site, uns templates bem bonitos para o Instagram e vira e mexe faço ensaio fotográfico para atrair as pessoas pela imagem. Eu entendo, reconheço essa como uma necessidade estratégica e até confesso que curto os elogios que vem de uma comunicação "bem feita". A beleza é isca, para mim e para vocês. Assim, eu uso esses recursos para alavancar o meu negócio, mas não sem parcimônia ou questionamentos internos.


Mas sabe, minhas caras? Meu coração vibra mesmo de alegria é quando alguém vem até mim e se sente como igual; bonito e ver a mulherada sentar bem relaxada nas esteiras de palha jogadas no chão irregular da Casa de Bibi, ouvindo de fundo os latidos da vira-latas Sofia que mora na casa simples do meu Tio Pia, com quem divido o quintal. Bonito é a cliente dizer: "tá phoda" e eu responder: "putz, tá phoda aqui também." Rimos juntas e a medicina se faz, a partir do que é real.